DIA DA CRIANÇA, DIA DA IMAGINAÇÃO Hoje será um dia muito especial. Se alguém disser que criança é só alegria, devo concordar. Mas apenas hoje. Ninguém vai me colocar para dormir, nem me arrancar da cama na hora que desejarem. Neste dia, no meu dia da criança, escolhido por mim, o universo será meu brinquedo. Meu quarto terá a minha cara e meu cheiro. Cara de um palhaço espalhafatoso, de bolinhas de vidro misturadas com meias sem par e tênis esgarçados e sujos. O cheiro será o da rua. E ninguém entrará pela porta querendo colocar ordem em tudo, com expressão de que toda a mágoa da família advém de meu jeito de ser. Nada de vozes dando ordens. Hoje ninguém vai me cobrar lição da escola. Vou comer o que bem entender, na hora em que bem quiser, e almoçar se tiver vontade. Hoje acordei com a macaca. Não sei, nem quero saber, que horas são. Não preciso passar pela cozinha, posso sair e ir direto à sorveteria. Não há nada mais gostoso que um sorvete como primeira refeição. Também vou descobrir que minhas moedas não valem muito. Irá quase tudo no sorvete duplo, de chocolate e creme, que tenho na ideia. Não fosse o dia de hoje, o escolhido, nem pensar em sair de casa sem estar calçado. Ainda mais com a manhã nublada, ameaçando chuva. Mas vou sair sem os sapatos. Pode existir algo mais gostoso que ter os pés afundados em barro? E ter a chuva todinha só para você? Ignorar os cadernos pelo menos por um dia... Esquecer escola e professora. Dia da criança com os pais em casa não tem graça alguma, tudo funciona como se o dia pertencesse a eles. Eles acordam a gente para um café especial, querem que vistamos o que eles desejam, dão presentes que não pedimos e nos levam para passeios a lugares que escolheram. Mais se parece com o dia dos pais. Daí minha felicidade. Para mim, o dia de hoje será o verdadeiro dia da criança. Não vou tomar café da manhã. No lugar, sorvete. Depois, brincar de carrinho de rolimã, de pipa, de bolinha de vidro. Permanecerei o dia todo com a mesma roupa, não ouvirei a voz de minha mãe me chamando para o almoço, retornarei no final da tarde, sujo, suado e cansado. Sem a ordem de ninguém, mas apenas pelo corpo quebrado de tanto brincar. Banho? Nem pensar! Vou tomar refrigerante gelado com bolacha doce ou pipoca, sem me preocupar com o sofá novo. Assistirei aos programas permitidos apenas para adultos, aqueles que eles escondem da gente quando nos colocam para dormir. Nem vou perceber com a chegada dos sonhos que adormeci no sofá da sala. Hoje vou chamar todos meus amigos de rua e dizer a eles que devemos renunciar dos pais. Como dizem os adultos, vamos fazer uma greve; de pais. A rua vai ficar cheia de meninos e meninas na maior algazarra. Será proibida a presença de qualquer adulto. Que não se atrevam a invadir o dia de hoje, o dia da criança escolhido por mim. Nenhuma briga terá apartes de gente grande. Ninguém roubará da criança seu direito à perversidade e de fazer xixi na rua. Toda criança terá direito de levar para casa quantos gatos e cachorros desejarem, sem ter de ouvir os sermões dos pais. Nenhum adulto terá o direito de vasculhar e retirar a cera do ouvido de qualquer criança, de dar bronca e reclamar de ferimentos de qualquer espécie. Hoje nenhum vizinho poderá reclamar de barulho, de bolas estragando seus jardins, de palavrões ditos ao acaso, das marcas dos pés sujos de barro nos muros. No dia escolhido por mim, como dia da criança, só será permitida a presença de avós, desde que ajam como tal, sempre respeitosos em relação ao dia, mas apenas na rua e em suas casas, que dar uma fugida na casa dos avós no dia da criança é sempre bom demais, acho que devem pensar como eu. Avós sempre são mais maleáveis, permissivos, deixam-nos fazer coisas que os pais não deixariam. Acho que devem ter saudades do que não fizeram na infância. Para viver um dia assim, da criança, só meu, invento que meus pais saíram de férias e me esqueceram em casa. Cabeça de criança é assim, simples. Sempre sonhei com esse dia. Ele chegou. Criança tem a vantagem de poder imaginar, brincar de coisas impossíveis, com o imponderável, mesmo na minha idade, quando na verdade os pais já partiram para outra, e a crônica me permite um dia da criança, absolutamente único. Na outra infância, fui um pouco o monstro produzido na fábrica dos adultos.
Escrito por capro às 20h46
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