escatológico-apocalíptico-atmosférico


13/12/2015


Eu gosto disso...
espremer pulgas
e caçar borboletas nas madrugadas

Eu gosto disso...
aprisionar ratos
e pisar em baratas nos bueiros

Eu gosto disso...
assediar formigas
e inverter besouros no jardim

Eu gosto disso...
lesmar na cama
até a última gota da noite

Eu gosto disso...
assoprar prosas
e historiar palavras a esmo

Eu gosto disso...
me amoitar
diante dos sonhos inúteis

Eu gosto disso...
dos ismos perdidos
e da agudeza da lâmina do vento

Eu gosto disso...
relinchar no aclive
e surfar nas ruas descidas

Eu gosto disso...
ao contrário
você um escutador a menos


Escrito por capro às 12h03
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Donjuanesco lisboeta...

Tempos corridos na época de Salazar quando nem salazes nem ligeiras fantasias ao povo eram permitidas. Em Lisboa vivia um gajo esperto no trato cujo negócio envolvia todo tipo de vinho. Jovem ainda, de bom porte e boa lábia, não tinha dificuldades para vender gato por lebre se o sujeito diante dele quisesse mostrar conhecimento daquilo que não dominava. E que se cuidassem os militares, o hormônio fervilhava dentro dele, além de sentir certa atração pelas mulheres dos fardados, transformando cada conquista no seu modo revolucionário de ser contra a ditadura ali imposta. Seu ponto era muito bem frequentado pela fama de profundo conhecedor de uvas e dos fermentados, fosse em garrafa de vidro ou tonel de madeira, sem deixar de acrescentar que também pelo interesse das mulheres pelo português de fala tortuosa e olhar que por si só já as deixava molhadas e preparadas para o orgasmo. E assim foi enriquecendo, afiando as papilas gustativas dos fregueses com suas histórias sobre a qualidade de determinado vinho que oferecia primeiro às mulheres, pois era delas a primeira nota, mergulhadas em sexo oral com o cristal do cálice, como se aquilo fosse o falo do jovem negociante. Era sempre um vinho vagabundo que oferecia a preço de ouro e de um encontro marcado com as mulheres no quarto reservado no fundo de um comércio onde faziam as unhas e os cabelos. Ali, num conluio amoroso recheado de vinho de primeira, enquanto os motoristas aguardavam o retorno delas dentro de suas viaturas, as esposas dos coronéis e comandantes experimentavam, fosse de madeira ou vinho do porto, uma gota que o gajo deixava cair suavemente sobre a própria glande para somente depois desse delicado ritual terem o corpo penetrado pelo falo enrijecido daquele Don Juan revolucionário. Conta-se que descoberto fugiu para o Brasil antes da revolução dos cravos em setenta e aqui fixou morada, vindo a falecer já depois dos noventa.

Escrito por capro às 11h59
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